Eu, Preso
Direção: Paula Sacchetta
Brasil, 2019, 8x26'
A partir de histórias pessoais, um panorama do sistema carcerário no Brasil.
O Brasil tem hoje mais de 700 mil pessoas atrás das grades, que, somadas, são mais que a população inteira de Aracaju (SE). Desde o ano 2000, esse número aumentou 167% e ele não para de crescer. Até 2016 éramos a quarta maior população carcerária do mundo e em 2017 viramos a terceira. O número de presos na Índia, país com 1,2 bilhão de habitantes, é menor. Assim, proporcionalmente, o número de presos brasileiros é muito alto se comparado ao tamanho de nossa população. São 306 presos para cada 100 mil habitantes, mais que o dobro da média mundial, que é de 144 presos por 100 mil pessoas. Se os números já dizem tanto, imagine agora quem são as pessoas por trás deles. A série Eu, Preso, de oito episódios de 26 minutos, conta a história dessas pessoas. [expandir para ver mais]
São homens e mulheres, em sua maioria negros, com histórias de vida das mais variadas. São mães, pais, chefes de família. São garotos que entraram para o tráfico. São presos provisórios que podem passar meses atrás das grades antes de qualquer julgamento, para depois serem julgados inocentes. São mulheres estrangeiras que resolveram entrar no país carregando drogas, muitas vezes para poder alimentar os próprios filhos, mas que embarcaram em uma viagem sem volta e podem passar mais dez anos sem vê-los de novo.
Para dar uma visão do sistema carcerário e do recorte racial e de classe levado a cabo pelas prisões, vamos embarcar nos dramas humanos: quem são, de onde vieram e como foram parar na cadeia? Como é a vida no cárcere e o que esperam do futuro, fora dali? Como é a vida depois dessa experiência na prisão? A partir de histórias pessoais, recolheremos uma visão global de um dos sistemas mais perversos do mundo. A partir de uma visão humana: o macro, a lógica de todo um sistema.
EPISÓDIOS:
#1 - Mãezinhas
O que acontece com uma família quando uma mãe vai presa? Como é o dia a dia na ala materno-infantil de uma penitenciária? No primeiro episódio, um retrato dos mulheres atrás das grades.
De um total de aproximadamente 700 mil presos no Brasil em 2016, 42,3 mil eram mulheres. Em números absolutos, o Brasil está em quarto lugar na lista dos 20 países com maior população prisional feminina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, China e Rússia. 80% dessas mulheres são mães. Apesar de existirem leis que prevêem penas alternativas para grávidas e mulheres com filhos de até 12 anos, o Judiciário tem sido conservador na condenação delas. A maioria é negra e foi condenada por tráfico de drogas. Geralmente, elas são as únicas responsáveis pelo sustento do lar, cuidado dos filhos e até de idosos da família. Muitas vezes o lar se desintegra quando elas são encarceradas.
#2 - Presos provisórios
Mais de um terço dos presos do país são provisórios, ou seja, foram presos antes do julgamento. O que isso significa? Por que prendemos primeiro e julgamos depois?
"No Estado de São Paulo, em 2017, cerca de 55.536 pessoas foram presas e mantidas na prisão antes de qualquer julgamento e por lá ficaram em média 234 dias. Os presos provisórios representam hoje 34,4% - 236,1 mil pessoas -, da população carcerária do Brasil, e a manutenção dessas pessoas presas indevidamente sobrecarrega o já superlotado sistema penitenciário. Apenas contando os dias antes do julgamento, essas prisões custaram cerca de 45 milhões de reais ao contribuinte. E para quem foi preso provisório - e pior - indevidamente, o que acontece? O preso é afastado de sua família, de seu emprego, de seus estudos. Tem seu direito à liberdade suspenso, sendo confinado em uma cela em condições geralmente desumanas. É forçado à convivência com outros acusados de crimes mais graves e se encontra em situação vulnerável à coação do crime organizado, que domina boa parte das prisões. Quando finalmente é levado a julgamento, o que demora em média 7 meses e 8 dias entre aqueles que chegaram a ser julgados, apenas em 18,6% dos casos ele cometeu um crime grave o suficiente para ser mantido preso em regime fechado."
#3 - LGBTs no cárcere
Pessoas LGBTs em situação de prisão representam o segmento de maior vulnerabilidade dentro do sistema prisional. Como é a vida numa ala LGBT de um presídio paulista?
Pessoas LGBTs em situação de prisão representam o segmento de maior vulnerabilidade dentro do sistema prisional. Quando falamos de travestis e transexuais, a situação é ainda pior. Além de todas as outras violações que ocorrem comumente no sistema carcerário, como superlotação e maus tratos, essas pessoas ainda sofrem discriminação por conta de sua orientação sexual ou de gênero. Homens homossexuais precisam esconder ou mascarar sua orientação sexual em nome de sua segurança e pessoas trans e travestis não podem viver de acordo com sua identidade de gênero, o que vai desde a falta de acesso à saúde que permitiria a continuidade do processo de adequação sexual, sem interromper o tratamento hormonal, até a impossibilidade de utilizar roupas condizentes com sua expressão pessoal de identidade de gênero.
#4 - De menor
Sistema socioeducativo ou porta de entrada para o sistema carcerário? Como funcionam as Fundações CASA e as antigas FEBEMs?
Privar de liberdade jovens e adolescentes sempre foi um assunto polêmico. As chamadas medidas "socioeducativas" podem ser diversas, como o trabalho comunitário, por exemplo, mas neste episódio vamos mostrar a história de jovens presos ou egressos da Fundação Casa. Na teoria, não podemos chamá-los de presos, já que estão em pena restritiva de liberdade de medida socioeducativa, mas, na prática, estão presos e os locais que os abrigam ou abrigaram são quase tão ruins e superlotados quanto as prisões de adultos. O cenário é o mesmo: superlotação e alto índice de reincidência.
#5 - Trabalho
No quinto episódio da série, o trabalho do preso. Ele serve de alguma coisa do lado de fora, depois de cumprida a pena? Ou serve apenas para ajudar a passar o tempo lá dentro?
Quando o regime semiaberto de cumprimento de penas teve início no Brasil, nos anos 1980, a ideia era que a ressocialização dos presos se desse por meio do trabalho em colônias agrícolas ou industriais. Mas o baixo investimento nesses estabelecimentos somado ao perfil dos presos, que não eram agricultores, fez com que a ideia pouco se concretizasse. Hoje, estar em regime semiaberto significa estar preso, dormir na prisão e sair todo dia de manhã para trabalhar. Para conseguir sair do regime fechado e conquistar um emprego, os presos precisam apresentar um convite de alguma empresa da cidade onde estão detidos. Quem não é convidado, é mantido no sistema fechado. Quem é convidado, tem que ser liberado para trabalhar pela direção do presídio, seguindo sua sentença ou progressão de pena.
#6 - Mulheres mulas
Mulheres mulas do tráfico: quem são as estrangeiras que chegam ao Brasil direto para dentro de uma penitenciária por estarem carregando drogas?
A população carcerária feminina não é formada apenas por brasileiras. Em 2001, as estrangeiras eram apenas 40 e hoje já são cerca de 400 só em São Paulo, vindas de mais de 60 países. 53% das mulheres estrangeiras no sistema prisional vieram da América, 27% da África, 13% da Europa e 7% da Ásia. 95% delas vieram parar no Brasil como mulas do tráfico internacional. Neste episódio, vamos mostrar quem são essas mulheres, de onde vieram e o que as fez viajar para um país até então desconhecido - algumas com quilos de cocaína ou outras drogas. Vamos contar como eram suas vidas no país de origem e como a viagem não foi propriamente uma escolha. Apesar de muitas estarem em situação de vulnerabilidade, elas são presas e condenadas como traficantes, pegando anos e anos de pena em regime fechado, e acabam em um limbo jurídico e social que desconsidera suas trajetórias pessoais, ignorando que muitas foram vítimas do tráfico de pessoas.
#7 - Penas alternativas
Existem outros tipos de pena para além da prisão. Serviço comunitário, grupos reflexivos e justiça restaurativa. Neste episódio vamos falar das penas alternativas.
É possível estimar que 150 mil pessoas no Brasil cumprem pena em regime fechado por crimes que podem ser punidos com penas alternativas. Isso equivale a 24,6% da população carcerária no país. Apesar de poder representar a solução para a superlotação do sistema, o judiciário brasileiro ainda é muito conservador em adotar essa medida. Mesmo que a taxa de reincidência entre réus com direito a medidas alternativas seja quase a metade do percentual dos que cumprem pena privativa de liberdade.
#8 - Eu, um ex-preso
O que significa ser um ex-presidiário? Quanto vale o currículo de uma pessoa egressa do sistema prisional? No último episódio da série, vamos mergulhar na vida de três pessoas depois da prisão.
Já cumpriram suas penas, mas continuam pagando um alto preço mesmo depois de soltas. Vamos mostrar o que significa a pena restritiva de liberdade. Com eles, vamos entender porque mais da metade das pessoas que cumpriram pena e foram soltas voltam a cometer crimes. Para finalizar e fechar a série como um todo, a partir de todos os perfis de presos apresentados nos outros episódios, vamos tentar responder, de que serve, afinal, a pena de prisão. Como cada um olha para seus crimes e para os dias que passaram atrás das grades?

