LIVROS!
Selecionamos aqui alguns livros teóricos para você estudar.
Eles refletem sobre a realidade carcerária
no Brasil e no mundo e sobre o Abolicionismo Penal.
Você pode encontrar eles
gratuitamente em bibliotecas públicas,
comprar online ou
escrever pra gente e te ajudamos
(a encontrar um exemplar,
a pensar por onde começar,
a pensar como fazer um grupo de estudos ou entrar em um que já existe).
*Eles estão organizados em ordem decrescente de edição original.
A publicação de Capitalismo carcerário traz para o português brasileiro os primeiros textos de Jackie Wang. O livro faz a atualização das dimensões raciais, econômicas, políticas, jurídicas e tecnológicas do problema do encarceramento em massa nos EUA. Ele é composto por sete ensaios que analisam as transformações do controle biopolítico de jovens infratores a partir da década de 1990, com a consequente adoção da prisão perpétua para menores de idade; a formação de um mercado racializado de dívidas "subprime" que promove a despossessão da população negra nos EUA; a formatação de um esquema oficial de pilhagem que se utiliza da polícia e da justiça criminal para prender e arrecadar dinheiro da população pobre, com o intuito de resolver o déficit fiscal dos municípios após a crise de 2008; o desenvolvimento e aplicação de tecnologias preditivas e algorítmicas no policiamento; e um debate poético sobre as possibilidades imaginativas do abolicionismo penal. Jackie Wang é abolicionista penal, poeta e pesquisadora do Dpto. de Estudos Africanos e Afro-americanos na Universidade de Harvard, onde se especializou na investigação sobre raça e a economia política da polícia e das prisões nos EUA.
Em Irmãos, o sociólogo Gabriel Feltran oferece uma interpretação alternativa àquelas que vêm ocupando o debate público brasileiro e que buscam comparar o PCC com outras organizações criminosas como os comandos cariocas, as gangues prisionais americanas ou as máfias italianas, russas ou orientais. Para o autor, o modo de organização do PCC tem mais a ver com as irmandades secretas, funcionando como uma maçonaria do crime ― uma rede de apoio mútuo, pautada por um conjunto de valores considerados justos, em que ninguém deve atravessar os negócios nem a honra do outro irmão. Feltran percorre os momentos cruciais da história da facção: sua criação em Taubaté; a megarrebelião de 2001; a revolução interna de 2002, em que a visão igualitarista de Marcola ganhou força contra o projeto de terror público sob a liderança personalista de Geleião; as revoltas de 2006, que horrorizaram a classe média; as violentas disputas entre facções a partir de 2017. Irmãos apresenta um país em que o crime conquistou efetiva hegemonia política para partes significativas da população. Nele, o PCC emerge como uma entre outras instâncias de geração de renda, de acesso à justiça ou proteção, de ordenamento social, de apoio em caso de necessidade, de pertencimento e identificação, desafiando o projeto de uma comunidade nacional integrada, promessa que que a redemocratização não logrou entregar. “ Irmãos é um livro excelente, que nos ajuda a compreender o PCC como algo que transcende o que já se sabe do 'mundo do crime'. Absolutamente indispensável.” - Michel Misse
Bruno Paes Manso e
Camila Nunes Dias
2018, Editora Todavia
Este livro é uma reportagem capaz de fixar a fisionomia do crime no Brasil. Os autores obtiveram relatos inéditos de integrantes das facções criminosas e contam essa história sob um ângulo revelador. Quem assumiu a dianteira desse processo foi o PCC, responsável por um grau inédito de organização nos presídios brasileiros. Criada em 1993, a facção passou a ditar as regras do crime nas prisões de São Paulo, impôs sua influência sobre outros estados e agora se internacionaliza a uma velocidade vertiginosa, valendo-se de expedientes cada vez mais violentos. Nunca essa realidade foi retratada com tintas tão fortes.
Gabriel Feltran
2017, Editora Boitempo
Inovador na exploração do sistema penitenciário paulista, este trabalho revela a intricada complexidade do encarceramento contemporâneo. Ao analisar o processo penal, a expansão interna das prisões e o abastecimento, oferece perspectivas renovadas sobre as dinâmicas das facções prisionais. Neste livro, Rafael Godoi explora o funcionamento atual e cotidiano do sistema penitenciário paulista a partir de três aspectos: 1 - a dinâmica da execução penal e o particular regime de processamento que organiza o fluxo de condenados pelos espaços de reclusão; 2 - o processo de expansão interiorizada do parque penitenciário, as formas de territorialização das unidades prisionais, da população carcerária e das agências que compõem o sistema de justiça; e 3 - o sistema de abastecimento que promove condições mínimas de sobrevivência no interior das prisões e as diversas modalidades de investimentos materiais e políticos que o caracterizam. A constatação de que o funcionamento cotidiano das prisões no estado de São Paulo depende de uma ampla mobilização e de uma contínua articulação de uma variedade de agentes situados tanto dentro como fora da instituição - principalmente de presos e seus familiares - lança questões sobre figurações atuais e hegemônicas da prisão, que a tomam, de um lado, como um mundo social à parte e, de outro, como um dispositivo de mera incapacitação de amplas camadas populacionais marginalizadas. A obra contribui para a reflexão sobre o encarceramento em massa contemporâneo, ao propor parâmetros descritivos e analíticos distintos daqueles que se formularam com referência às experiências do punitivismo nos Estados Unidos e na Europa ocidental. Godoi busca também iluminar algumas das condições de possibilidade que estão nas bases da emergência das facções prisionais, especialmente, do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Karina Biondi
2017, Editora Terceiro Nome
O livro é um estudo dos modos de vida e do cotidiano do Primeiro Comando da Capital, o PCC, no qual a autora, Karina Biondi, enfrenta os desafios cruciais que essa organização criminosa apresenta à sociedade e à administração pública brasileiras. Por meio de uma etnografia intensa, sua pesquisa busca entender o PCC sob um ponto de vista interno e não meramente pelo discurso jurídico ou criminalizador.
Fábio Mallart e
Rafael Godoi (orgs)
2017, Editora Veneta
Assassinatos, tortura, humilhações, má alimentação, racismo, superlotação, falta de cuidados médicos, arbitrariedades, presos sem julgamento etc. Detentos trancados por horas dentro de um camburão, sob o sol, num procedimento proposital conhecido como “micro-ondas”. Surtos de tuberculose e sífilis atacando grupos de prisioneiros. Psicofármacos, os únicos remédios que nunca faltam, consumidos nas celas como mecanismo de controle. Uma grávida dá à luz algemada, e será separada de seu bebê daqui seis meses. Os relatos contidos neste livro são poderosos. Os artigos foram produzidos por militantes, pesquisadoras e pesquisadores das prisões brasileiras que, além da denúncia, fazem a análise do que sustenta esse sistema de produção de “vidas matáveis”, na expressão dos organizadores Fábio Mallart e Rafael Godoi. Esperamos que a obra possa contribuir para a abolição desse sistema. Este livro é mais uma parceria da editora Veneta e do Le Monde Diplomatique Brasil.
Felipe Brito e
Pedro Rocha de Oliveira (orgs)
2013, Editora Boitempo
Análise sobre a militarização das favelas cariocas, revelando as UPPs como ocupações armadas e revelando a complexidade da gestão do colapso social. A coletânea destaca a relação entre militarização e vida cotidiana, desmistificando a suposta eficácia das políticas de ocupação permanente.
Destinado aos inquietos e questionadores, o curso livre de abolicionismo oferece possibilidades de contatos, sociabilidade, troca de experiências etc. Um grupo expressivo de professores Maria Lúcia Karam, Edson Passeti, Salete de Oliveira, Thiago Rodrigues, Vera Malaguti e Nilo Batista uniu-se durante uma semana objetivando apresentar e problematizar o abolicionismo penal. Do encontro surgiu a criação do curso (realizado na PUC-SP) que gerou discussões calorosas, papos repletos de dúvidas e ind agações sobre uma área inovadora do Direito. O livro Curso livre de abolicionismo penal é uma extensão do curso. Feitas as devidas revisões, cada capítulo é composto por uma aula (disposição dos palestrantes por ordem alfabética), no livro foi adicio nado uma aula extra, com Louk Hulsman. O livro visa a atingir não somente ao seu público original, como também outros cursos, grupos, formadores de opinião, oferecendo a outras pessoas novos envolvimentos com a abolição do castigo. O abolicionista pe nal é aquele que começa abolindo o castigo dentro de si. Inventa uma linguagem, um estilo de vida, em que, mesmo não se apartando das utopias, atua no presente de maneira heterotópica. Não deixa para o futuro o que é preciso fazer agora.
O livro, com selo da coleção Pensamento Criminológico, tem por fio condutor a luta “por uma sociedade sem prisões”, nas palavras do autor. Este examina com lupa de especialista os diversos ângulos do sistema penal e “de segurança” vigentes no Brasil e, de modo geral, no mundo capitalista, que tem por diretriz a finalidade de excluir até fisicamente da vida social a parcela crescente da população para a qual o capitalismo atual não gera emprego produtivo. Importada dos Estados Unidos, essa diretriz toma a forma prática de perseguição sistemática a pobres, que são na maioria negros e pardos. Para ser executada, ela se desdobra na construção em massa de presídios e na privatização dos serviços carcerários, o que transforma esse setor em mais um ramo de realização do lucro capitalista e, inclusive, de exploração do trabalho em regime de semi-escravidão. Uma ampla e profunda reforma social e legal se faz então necessária.
R Cabanes, I Georges, C Rizek, V Telles (orgs)
2011, Editora Boitempo
Sociólogos e antropólogos revelam a vida nas periferias de São Paulo, explorando temas como trabalho informal, tráfico de drogas, configurações familiares e muito mais. Um longo trabalho que apresenta algumas dimensões da vida das classes populares na maior metrópole brasileira. Fruto do longo trabalho coletivo de uma equipe composta por pesquisadores mais experientes ao lado de outros mais jovens, de origens e gerações diferentes, os 21 artigos se referem a diferentes “saídas de emergência” e a uma multiplicidade de ângulos de abordagem. “Trata-se da maneira como aqueles que estão submetidos às relações de dominação na cidade tentam superá-las, às vezes procurando construí-las em escala maior que a de seu meio social, por percursos que passam por formas de trabalho e atividade, religião, vida em comum e recomposições familiares”, explicam os organizadores do livro. As estratégias de vida, observadas nas pessoas e nas famílias, representam modos tanto de fugir da responsabilidade direta do trabalho quanto de ressignificá-lo por meios indiretos. O tráfico, por exemplo, é referência econômica (garante a sobrevivência de muitas pessoas), social (ajuda pessoas ou associações) e moral (impregna a vida cotidiana com seus modos de pensar e agir). Frente à complexa realidade urbana, os pesquisadores não fantasiam a honra e o caráter de suas “personagens”; nenhum afirma que o Jardim Maravilha é uma maravilha. “A consciência crítica atenta não resvala em glorificação da pobreza e de sua situação na cidade capital do gigante emergente”, reconhece Oliveira. “A fronteira entre o legal e o ilegal, o lícito e o ilícito, o formal e o informal, não é erguida por eles: é a fantasia jurídica do capitalismo “globalitário”.
Michelle Alexander
(2010) 2017, Editora Boitempo
Publicada originalmente em 2010, a obra vendeu mais de 600 mil exemplares e permaneceu na lista de mais vendidos do The New York Times por mais de 150 semanas. O livro desafiou a noção de que o governo Obama assinalava o advento de uma nova era pós-racial e teve um efeito explosivo na imprensa e no debate público estadunidense, acumulando prêmios e inspirando toda uma geração de movimentos sociais antirracistas. A nova segregação ganhou o NAACP Image Award de melhor não ficção em 2011. A edição brasileira tem apresentação de Ana Luiza Pinheiro Flauzina, orelha de Alessandra Devulsky, revisão técnica e notas Silvio Luiz de Almeida. Pedro Davoglio assina a tradução. “O sistema de castas raciais nos EUA não foi superado, foi meramente redesenhado”, diz a jurista. Ao analisar o sistema prisional dos EUA, Alexander fornece uma das mais eloquentes exposições de como opera o racismo estrutural e institucionalizado nas sociedades ocidentais contemporâneas. Para a autora, o encarceramento em massa se organiza por meio de uma lógica abrangente e bem disfarçada de controle social racializado e funciona de maneira semelhante ao sistema “Jim Crow” de segregação, abolido formalmente nos anos 1960 após o movimento por direitos civis nos Estados Unidos. Não é à toa que este país possui atualmente a maior população carcerária do mundo (com o Brasil pouco atrás, em 4º lugar, depois da China e da Rússia).
Em 2017, a versão em inglês de Junto e misturado: uma etnografia do PCC, primeiro livro de Karina Biondi, recebeu um dos mais importantes prêmios internacionais de antropologia, o de Melhor Livro do Ano da Association for Political and Legal Anthropology (APLA), da American Anthropological Association (AAA), fundada em 1902. O livro trata do universo pouco conhecido e controverso do PCC (Primeiro Comando da Capital) descrito a partir do relato de presos, da própria experiência da autora em visitas na prisão e dos instrumentos da etnografia.
A publicação de Califórnia Gulag: prisões, crise do capitalismo e abolicionismo penal traz para o português brasileiro o primeiro livro da autora. Ruth Wilson Gilmore é a mais importante estudiosa e escritora sobre a questão carcerária e abolicionista na atualidade. Este livro é considerado o maior clássico sobre a formação e consolidação do "complexo industrial prisional" nos Estados Unidos. Desde 1980, o número de pessoas nas prisões dos EUA aumentou mais de 450%. Apesar de uma taxa de criminalidade caindo há décadas, o estado da Califórnia liderou essa expansão por meio do que ficou conhecido como o “maior projeto de construção prisional na história mundial”. Califórnia Gulag fornece a primeira explicação detalhada para esse boom prisional, demonstrando como as forças políticas e econômicas, globais e locais, se uniram para formar e consolidar o "complexo industrial prisional" nos EUA. A partir de um relato emocionante e rico em informações e análises teóricas e conjunturais, Ruth Wilson Gilmore examina esse fenômeno desde diferentes perspectivas para explicar como a expansão prisional ocorreu devido aos excedentes de capital financeiro, trabalho, terra e capacidade estatal tornados ociosos no processo de desindustrialização e do fim do estado de bem-estar social no país. Detalhando as crises que atingiram a economia da Califórnia com particular ferocidade, ela argumenta como as secas históricas da década de 1970 no estado, as mudanças nas disputas pelo poder econômico das terras agrícolas, as derrotas das lutas radicais, o enfraquecimento do poder do trabalho e a mudança nos padrões de investimento de capital formaram o cenário para o desenvolvimento do crescimento prisional. Os resultados – um caro e gigantesco sistema prisional, um grande número de jovens negros e latinos encarcerados e o aumento da justiça punitiva, como a lei three strikes – colocam questões profundas e preocupantes para o futuro da Califórnia, dos Estados Unidos e do mundo. *Califórnia Gulag* conta a história, a geografia e a economia política por trás da transformação do estado da Califórnia numa espécie de gulag dentro do território dos EUA. O livro conta também a inevitável e potente formação de grupos abolicionistas de mães que precisam se erguer e se organizar para fazer frente ao sequestro de seus filhos para dentro dos cárceres do Estado.
Este livro de Alessandro De Giorgi atualiza o conjunto de reflexões que o Instituto Carioca de Criminologia vem publicando ao longo dos últimos dez anos. A coleção Pensamento Criminológico tem com elo de articulação a produção teórica acerca da questão criminal que se opõe ao grande movimento de criminalização da pobreza, gerado pelo processo de acumulação de capital ao longo dos séculos. Na etapa em que nos encontramos, de capitalismo de barbárie, podemos observar a expansão do mercado em todas as direções, mas principalmente no esfacelamento das redes sociais de proteção coletiva do capitalismo industrial, do Estado Previdenciário ou Welfare State. No âmbito penal, há uma expansão análoga no sentido de um crescimento sem precedentes da pena de prisão. Como diria Loïc Wacquant, o outrora denominado mundo livre está sendo encarcerado... Alessandro De Giorgi aprofunda esta reflexão crítica acerca do encarceramento em massa da força de trabalho excedente utilizando a economia política da pena no desemprego pós-fordista. Uma das principais qualidades desta obra é aproximar o marxismo do pensamento de Michel Foucault. O livro vem aprofundar e substancializar a luta e a clareza acerca das funções reais do sistema penal e dos discursos punitivos de hoje. Esta obra de Loïc Wacquant analisa o processo contemporâneo do desenvolvimento do capitalismo, principalmente nos Estados Unidos, mas com extensão a todo o mundo. Em condições nas quais o capitalismo gera mais desemprego do que emprego, têm lugar a criminalização da pobreza e a passagem do Estado de Bem-Estar Social ao Estado Penal. Os serviços sociais perdem a função assistencial para transformar-se em instrumentos de vigilância e controle das novas ''classes perigosas''. O trabalho de Wacquant desvela a nova missão histórica do sistema penal dirigida à ''regulação da miséria e ao armazenamento dos refugos do mercado''. Através do modelo estadunidense, ele analisa a prisão como substituto do gueto, bem como a relação de simbiose entre as duas instituições: o gueto como prisão social e a prisão como gueto judiciário. Este livro é fundamental para os que estão pensando a questão criminal relacionada à transformação do trabalho e as novas formas de marginalização.
Angela Davis
(2005) 2009, Editora Difel
Democracia da abolição reúne uma série de entrevistas dada por Angela Y. Davis logo após o escândalo do presídio de Abu Ghraib, nas quais a renomada ativista analisa como sistemas históricos de opressão tais quais a escravidão e o linchamento continuam a influenciar e solapar a democracia na atualidade. Em seus relatos, Angela Davis, uma das figuras políticas mais geniais da América, aborda lei e resistência, o assédio institucionalizado e a relação entre política e prisão. Davis comenta seu próprio encarceramento, sua experiência como “inimiga do Estado”, bem como o fato de ter integrado a lista de “mais procurados” pelo FBI. A autora ressalta o papel crucial que o ativismo internacional desempenhou no seu caso e no de muitos outros presos políticos. Davis se fundamenta na tese de W. E. B. Du Bois, segundo a qual, quando os negros se tornaram livres da escravidão nos Estados Unidos, a eles foram negados os direitos plenos de outros cidadãos. Somado a isso, o sistema carcerário norte-americano (que hoje conta com a maior população carcerária do mundo) atua de forma a manter o domínio e o controle sobre populações inteiras. Davis investiga a noção de “democracia da abolição” como a democracia por vir, um conjunto de relações sociais livres da opressão e da injustiça.
Loïc Wacquant
(2004) 2007, Editora Revan
Punir os pobres, que já era um título clássico entre os interessados em Criminologia, sai agora em versão nova, ampliada e atualizada pelo autor. Esta obra de Loïc Wacquant analisa o processo contemporâneo do desenvolvimento do capitalismo, principalmente nos Estados Unidos, mas com extensão a todo o mundo. Em condições nas quais o capitalismo gera mais desemprego do que emprego, têm lugar a criminalização da pobreza e a passagem do Estado de Bem-Estar Social ao Estado Penal. Os serviços sociais perdem a função assistencial para transformar-se em instrumentos de vigilância e controle das novas ''classes perigosas''. O trabalho de Wacquant desvela a nova missão histórica do sistema penal dirigida à ''regulação da miséria e ao armazenamento dos refugos do mercado''. Através do modelo estadunidense, ele analisa a prisão como substituto do gueto, bem como a relação de simbiose entre as duas instituições: o gueto como prisão social e a prisão como gueto judiciário. Este livro é fundamental para os que estão pensando a questão criminal relacionada à transformação do trabalho e as novas formas de marginalização.
É a obra da maturidade de Nils Christie, criminólogo cuja produção intelectual, como se sabe, é marcada pela visão crítica e global dos sistemas penais. Ante o espantoso aumento do número de presos, observável na absoluta maioria dos países ocidentais, o autor procura mostrar, através de exemplos eloquentes, que há modelos alternativos de solução de conflitos, cujos índices de eficiência superariam em muito o fracassado modelo penal. Ao mesmo tempo em que reafirma os equívocos do paradigma etiológico – o crime não é, ele se torna –, Nils deixa clara sua opção pelo minimalismo. Isto é, aceita um mínimo de pena somente naquelas hipóteses absolutamente excepcionais em que sua ausência produzirá mais dano do que sua aplicação. O presente livro demonstra, de forma clara, que o sistema penal de determinado lugar é o retrato fiel do tipo de sociedade em que ele atua, não sendo mera coincidência, pois, que em sociedades monoinstitucionais – aquelas em que a vida social é regida por apenas uma instituição social, isto é, a economia de consumo – só se lance mão de um modelo para o tratamento dos atos indesejáveis. Mais uma vez, o Instituto Carioca de Criminologia presta relevante serviço à produção acadêmica brasileira, ao disponibilizar para o público esta comovente obra.
Em Estarão as prisões obsoletas?, Angela Davis – estudiosa, ativista, referência dos movimentos negro e feminista – examina com seu olhar crítico o conceito de encarceramento como punição no país com a maior população carcerária do mundo. Abordando o passado norte-americano, a autora aponta como as prisões, desde seu aparecimento no panorama penal do país, reproduzem o modo de pensar escravagista que vigorava até a abolição. Essas estruturas de poder e privilégio, enraizadoras de racismo e sexismo, se perpetuaram até os dias atuais, nos quais uma passagem pela prisão parece ter se tornado inevitável na vida dos pobres e das minorias, criminalizados por sua própria existência, por pertencerem a uma parcela indesejada da população. Desde os anos 1980, a construção de prisões e a taxa de encarceramento nos Estados Unidos têm crescido exponencialmente, originando uma grande inquietação do público sobre a proliferação, privatização e a promessa de grandes lucros a partir do sistema carcerário. No entanto, essas prisões abrigam quantidades desproporcionais de minorias étnicas, deixando entrever o racismo entranhado no sistema. É preciso mais do que reformar o sistema prisional em busca de condições menos desuamanas – faz-se necessário buscar alternativas ao cárcere como instrumento de reforma criminal. E, nesse sentido, é impossível não ver os paralelos entre o movimento antiprisional e o movimento abolicionista: com esta última grande abolição da vida norte-americana, pode-se finalmente começar a desmantelar as estruturas que condenam tantos a uma vida de miséria e sofrimento. Em Estarão as prisões obsoletas?, a renomada ativista Angela Davis expõe com clareza a problemática do atual sistema prisional e propõe uma transformação radical no modo como a sociedade pensa a punição: é necessário reconhecer que o castigo “não é uma consequência do crime na sequência lógica e simples oferecida pelos discursos que insistem na justiça do aprisionamento, mas, sim, que a punição – principalmente por meio do encarceramento (e às vezes da morte) – está vinculada a projetos políticos, ao desejo de lucro das corporações e às representações midiáticas do crime”.
De forma original e detalhada, Vera Malaguti enfoca em "O medo na cidade do Rio de Janeiro" a difusão do medo do caos e da desordem para neutralizar e disciplinar as massas empobrecidas, a partir da hegemonia conservadora. Para entender as bases do medo contemporâneo, a autora analisa os discursos sobre a segurança na conjuntura de pânico no Rio de Janeiro na década de 1990 do século XX, paralelo ao estudo dos medos cariocas do século XIX, ao retratar a repercussão no Rio de Janeiro da revolta muçulmana escrava conhecida como a Revolta dos Malês.
Quatrocentos contra um: uma história do Comando Vermelho
William da Silva Lima
2001, Labortexto Editorial
Se a prisão tem suas próprias leis, cada presídio é um mundo. Em 400 x 1, William da Silva Lima conta como foi transitar pelas cadeias mais lendárias do país e sobreviver. Dele e de outros companheiros partiu o código de conduta que originou o Comando Vermelho, facção que ainda rege comunidades e presídios cariocas. O livro traz um relato articulado e pungente da relação entre o mundo do crime e a sociedade, mas, sobretudo, um relato da trajetória de vida e dos anseios de um homem. Nesta edição, o leitor também tem acesso, em cada capítulo, a poesias feitas por William durante seus anos no cárcere.
David Garland
(2001) 2008, Editora Revan
O livro apresenta uma análise da realidade britânica e norte-americana, e de certa forma analisa também a realidade brasileira e latino-americana. Quem deseja entender por que o Brasil possui cada vez mais pessoas presas encontrará parte dos motivos no exemplo dos EUA, país que proporcionalmente mais encarcera seres humanos no planeta. A obra nos ensina por que os meios de comunicação têm, com o passar do tempo, dedicado atenção crescente à questão criminal. Quem já se deu conta da segmentação do espaço público e, dentro desta, da segregação de certos grupos, identificará as raízes deste processo urbano em aceleração nas práticas e ideologias atualmente vigentes nos EUA, na Grã-Bretanha e em outras democracias ocidentais. A semente do genocídio atualmente em curso nos centros urbanos brasileiros foi primeiramente plantada nos guetos das duas potências mundiais acima referidas – com absoluto protagonismo dos EUA, cuja ''Guerra contra as drogas'' se encarrega de avultar suas estatísticas nesse setor. David Garland busca entender essa radical mudança na orientação das práticas penais e os motivos para o assustador número de pessoas mortas em razão do crime ou de sua repressão.
É um estudo científico, fartamente documentado, sobre a evolução histórica da legislação penal e respectivos métodos coercitivos e punitivos adotados pelo poder público na repressão da delinqüência. Métodos que vão da violência física até instituições correcionais. Esta edição revista traz também uma nova capa mais moderna e atual.
Punição e estrutura social (2ª edição), de Georg Rusche e Otto Kirchheimer, é a primeira obra da Escola de Frankfurt editada pela Columbia University Press de Nova Iorque, em 1939. A produção do livro e sua recepção foram afetadas pelas dificuldades que o nazismo e a 2ª Guerra Mundial criaram para os autores, as quais, no entanto, não impediram que o livro se tornasse um clássico mundial na literatura de Direito. As relações entre o crime e o meio social, a questão social como causa básica da quantidade de crimes, métodos de punição e práticas penais são alguns dos temas abordados. O objeto da investigação é a pena em suas manifestações específicas. O elemento-chave da obra é o nascimento das prisões, forma especificamente burguesa de punição, na passagem ao capitalismo. Rusche baseia sua análise no princípio de que as condições de vida no cárcere e as oferecidas pelas instituições assistenciais devem ser inferiores às das categorias mais baixas dos trabalhadores livres, de modo a constranger ao trabalho e salvaguardar os efeitos dissuasivos da pena, relacionado ao mercado de trabalho.

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